Hay que saludar el pueblo! – 20 de setembro de 2011 – Santana do Livramento

Hay que saludar el pueblo!

Ainda ouço o bater de cascos e as chamarras da fronteira, quando encosto o corpo velho para mais um final de dia. Para o índio que se criou vivenciando a tradição, não há melhor época no ano. É como se fosse carnaval ou dia “primeiro”. Já o dia 21 de setembro é quando estamos mais longe do próximo “vinte”, mas o alento é que tudo o que vivemos ainda está muito presente.

Desde a chegada e o abraço em cada amigo e parente, até o último ato, ao cantarmos o hino do Rio grande, me passa um filme campeiro com enredo de emoção, amor e alegria. Tenho tudo isso estampado nos retratos que trago. É só olhar e ver.

Esse ano esteve ainda mais vaqueano, pois estiveram conosco um músico castelhano e uns primos que ha tempos não apareciam, e alegraram a todos com suas relevantes presenças. Assim o grupo se fortalece e se torna ainda mais alegre e representativo.

Das marcas do viajero ao cajon do castelhano, um coro que se abria e um Sapucai que se pegava. Assim passamos de festa até o fim da madrugada.

– “Escolhe o conjunto, que eu toco uma música”, trucou o violeiro.

– “Me toca uma dos Mirins”, retrucou o do pandeiro.

– “Mas olha o tranco da Morena Rosa, rebocada de Ruge Batão”, se atracaram até o vale quatro.

Foram poucas horas para o descanso até o despertar para o dia do desfile, que acordou com céu azul e pedindo cancha para a cavalhada.

A lida é linda e o gaúcho se apruma. Enquanto um encilha, outro escova uma égua, um ata a cola e outro apruma um laço, e quando se vê, já vão ao trote direito ao povo, levando um sorriso largo e o peito inflado da felicidade na representação do homem do campo.

A cada passo que a eguada empurra, a cidade se mistura com o campo, escancarando essa diferença no espelho de alguma loja, ou num “planchaço” de pata ferrada que resvalada no asfalto da faixa.

– Não passa nada calça floreada. Salta para cima e seguimos ao trote.

Ali na frente se encontra o piquete. São como duzentos, a espera da entrada. É hora de encontrar os amigos, tomar um trago, descansar às éguas e ajeitar os aperos para o momento culminante da festa.

– O Sapucai avisa a entrada: “Está na hora. Vamos que vamos chiruzada!”.

Entra o piquete com a cavalhada ao trote e o pala abanando para o público, que aplaude reverenciando a tradição. São milhares de pessoas que saíram das suas casas para apreciar esse espetáculo.

– “Hay que saludar el pueblo”, dizia quando cruzamos a linha, adentrando na Sarandi. Já havíamos subido a Andradas na contramão, uma tradição dos desfiles de Santana, e a colorada escarceava ao trote, puxando pelos aplausos do publico mais gaúcho deste Rio Grande.

Nessa hora o filme tem amor à tradição, emoção de protagonista e alegria estampada no rosto de cada presente, seja ele o que aplaude ou o que está aplaudindo. Ali o cumprimento, aos da rádio e da TV, dá seqüência com o narrador castelhano já quase na segunda praça e no final o encontro com os primos e amigos na dispersão da forma de duplas.

– Hay que saludar el pueblo!

– Hay que saludar a nossotros!

Dali o batimento vai voltando ao normal e a euforia vai baixando entre os comentários do desfile da cada um.

– Que desfile fizemos! Que desfile fez essa parelha de colorados!

A volta para a concentração, o reencontro com os peões e a volta para o galpão são momentos de constante festa e tradição. De pulperia em pulperia, o trago vem solto e a risada não esconde a alegria.

O trote largo aproxima do churrasco na trempe do mestre assador, da farra na guitarra do viajero e do descanso da eguada. A chegada é festejada por todos e a forma para o retrato anual também são lei. Ali se registra o final dessa jornada a cavalo.

Segue o baile e segue a festa. Gajeta e carne assada para acomodar às lombrigas, com muita música e parceria. “Que baita festa, meu irmão. Que baita festa. Com um violão e um pandeiro estava formada uma orquestra” (Telmo de Lima Freitas).

O encerramento tem que ser com o hino do Rio Grande, no couro emocionado dos presentes e no peito aberto de quem canta. “Sirvam nossas façanhas de modelo a toda a terra”.

Assim finda o setembro de 2011, com apenas uma certeza:

– Hay que saludar el pueblo!
Leonel Furtado
Setembro de 2011

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