Aqui estou em Casa

 Não existe momento melhor pra um índio botar às idéias em dia, do que a de uma tropeadita no lombo de um pingaço de respeito, daqueles que te dá prazer de andar enforquilhado. Quer ver então, se for numa semana farroupilha, com uma eguada por diante, quando tu larga a boca no rumo do povo e o pensamento se perde em meio ao bater de cascos.

Tropilha por diante

Tropilha por diante

 Os entendimentos de Barbosa Lessa sobre cultura e tradicionalismo me instigavam a pensar sobre as evoluções da cultura gaúcha num mundo globalizado, onde o limite entre o inovador e o estrangeirismo são tão próximos quanto o conservadorismo e a estagnação.

 Tenho muitos amigos que confundem esses conceitos, justamente por serem tão tênues, então passei a pensar como eu próprio costumo agir quanto a esse tema, já que a ação tem larga distância da verbalização.

 O suor já brotava na tábua do pescoço da minha baia encerada, que troteava faceira, atirando o freio, enquanto eu buscava uma conclusão. Segundo o que tinha lido de Lessa, a transferência de culturas se dá através da tradição, mas isso não quer dizer que toda a cultura seja tradicional.

 Vemos que atualmente o gaúcho gosta de cultuar o churrasco, o respeito pelo mais velho, o milho assado, a Polar, a marcação, a mateada na praça e o fato de ser hospitaleiro, pois em casa de gaúcho não tem tramela. Estes são exemplos de algumas características de um povo. Coisas e valores que os nossos filhos vão se criar cultuando e nesse ambiente vão estar seguros e encontrados em seu mundo. Aqui estou em casa!

 Alguém me diria então, – “porque a mateada na praça? Não estás tratando de cultura?”. Então recorro ao velho dilema do conservadorismo e da estagnação. Como poderia eu, ignorar a existência da mateada na praça como uma “nova” expressão de cultura de um povo, já que eu não posso manear o mundo para que ele não gire e não evolua?

 Entretanto, não se trata de tradição, pois o tradicionalismo é uma ação popular que visa o bem estar comum, com a finalidade de reforçar o núcleo da sua cultura. Sendo assim, somente caracterizam-se como tradicionalistas as ações e costumes mais fundamentados.

 Lembrando ainda das minhas leituras, reflito que por elas, aprendi que a todo o momento nossa cultura está sendo afrontada, e que se temos uma base cultural forte e alicerçada, temos condições de observar o que é benéfico e nos adaptarmos a isso, assim como utilizarmos o que não é de nosso agrado como exemplo do que não nos serve. Assim a cultura vai evoluindo, mas quando o contrário acontece, e não estamos preparados para essa observação, a confusão de identidade é inevitável.

 A baia sentia o tranco da estrada e já atirava o freio só de vez em quando. Tinha o corpo todo banhado em suor, mas o poder da bóia empurrava cada passo enquanto eu refletia agora sobre a importância dessa escolha e do poder da observação.

 É inegável que tudo avança, se modifica e se renova, mas é certo que os modismos e estrangeirismos que não estão fundamentados em um núcleo cultural forte, acabam perdendo interesse e, fragilizados, são esquecidos no tempo.

Conforme o tempo passa, percebemos que as nossas escolhas são feitas mais cedo e assim é importantíssimo entender a necessidade da atenção cultural na educação e formação da piazada, de forma que os nossos filhos cresçam tendo contato com a sua história. É essencial que tenham os exemplos dos pais, pois eles são suas referências de valores, hábitos, emoções ao qual Lessa chama de “Patrimônio Tradicional”.

 Seguindo a mesma linha de pensamento, reflito que o maior exemplo desses valores sempre foi o homem simples do campo, que é exatamente o símbolo maior da tradição gaúcha. A simplicidade, a educação e a honestidade irretocável da maioria absoluta das famílias campesinas são algumas das maiores referências de um povo. No entanto, vejo que atualmente essa admiração pelo campeiro sente a necessidade de ser reconhecida política e financeiramente pelo nosso estado, a fim de que retome o seu prestígio econômico de forma que o nosso gaúcho campeiro não seja extinto pela prática do êxodo rural, na busca das oportunidades nas cidades.

 O final de tarde chegava deixando alaranjado o céu da primeira vila da cidade, aonde eu chegava ao trote, com a idéia cheia de pensamentos e com os olhos mirando ao longe, enquanto as luzes das casas iam acendendo. Emanguerei a eguada e antes de desencilhar já me recebiam com um mate, um sorriso largo e um gole de pura que trouxeram do Rancho Alegre.

 Olhando aquele galpão tapadinho de gente, com a gurizada correndo na volta do assado e a cumplicidade das cozinheiras mais ao fundo, tive a certeza de que o mais difícil já foi feito. Temos uma linda história, um núcleo cultural consistente e uma referência bem definida que servem de base para as escolhas que sempre temos que fazer. A nossa missão é tão somente cultural, tradicionalista e regional. Devemos cobrar do nosso próprio povo e dos nossos governantes a valorização de tudo isso, pois o patrimônio cultural embasado nas três cores do pavilhão farroupilha é uma certeza de cada gaúcho.

 Com a licença dos amigos, vou desencilhar e tomar uns mates, pois aqui estou em casa.

 Leonel Furtado

Tropilha Emangueirada

Tropilha Emangueirada